agora que o nosso amor acabou
dizem-me que é apenas um final e não o fim.
que um dia a dor irá passar e que o tempo tudo cura.
 
agora que o nosso amor acabou
as noites são mais escuras e as lágrimas mais salgadas.
tudo perdeu o sabor, a comida, o doce que apodrece
no frigorifico, que agora já não apetece comer,
tudo deixou de ser prazer para ser dor.
 
agora que o amor acabou
o inverno voltou, apesar de ser verão lá fora.
está frio e falta-me o teu corpo para me enrolar nele.
agora que o nosso amor acabou, morto às tuas mãos
sinto falta delas a mapear o desejo que acenderam
em mim.
 
agora que tudo acabou, a recordação
da luz que entrava pela janela do teu quarto, o cheiro
da tua pele pela manhã, os nossos corpos nus estendidos
nos lençóis, tudo isso se desvanece e se desintegra
como o doce que apodrece no frigorifico.
sinto falta do teu abraço, do teu sorriso
e da forma estabalhoada
como eu me esticava para te beijar…
agora que tudo acabou, que o “nós” que existiu se desatou
como um laço ao vento, dizem-me que o tempo tudo cura.
dizem que o peso no peito se irá dissipar, dissolvido
pelas lágrimas.
regresso à casa vazia que desocupei e levo a caixa
com os filmes que queríamos ver juntos, os livros que nunca leste,
as cartas que te enviei e toda a vida que planeamos viver juntos,
até sermos engolidos pelo fim.
 
Para o que resta
– as memórias, as palavras,
os cheiros, os sorrisos, o suor, as horas de ternura,
as juras de amor eterno e a casa com jardim
onde passaríamos o resto das nossas vidas –
não tenho destino,
morrerão dentro de mim,
lentamente,
até tudo ser difuso como a luz
que entrava pela janela do teu quarto.

mvn, 2015