As sombras rastejavam à volta dos pés de Anri; por cima dele o céu tinha adquirido um tom azul-escuro-acinzentado. Havia ainda um brilho, longe, no mar alto, mas tinha sido comprimido pelo céu sombrio até se tornar numa faixa estreita em vermelho e dourado.
Então, enquanto Anri se detinha, fez-se ouvir vindo de baixo, o som grave e ressoante do sino de um templo; o sino da torre situada na vertente do monte tinha começado a dobrar, assinalando o fim do dia.
O som chegava em ondas lentas que pareciam despertar vibrações na escuridão, espalhando-a em todas as direcções. O som gravemente ondulante não dizia propriamente as horas, antes as dissolvia imediatamente transportando-as para a eternidade.
Anri escutou de olhos fechados. Quando os abriu novamente estava submerso na escuridão e a orla distante do mar revelava-se pálida e esbatida. O pôr do sol tinha terminado.

Yukio Mishima – Actos de Adoração